Treino Funcional – como limitar a progressão de um atleta

O artigo de hoje aborda um tema que está agora muito em voga na área do treino desportivo assim como na área de fitness – o treino funcional. Este tipo de treino é hoje apresentado como “o” método/tipo de treino que resolve tudo, que aumenta a força do atleta, que o torna mais explosivo, mais rápido e ajuda na prevenção e recuperação de lesões.
Mas o que é o Treino Funcional? Todos sabem mas dirão todos o mesmo quando questionados sobre este tipo de treino? Para cada treinador que fazemos esta questão conseguimos uma resposta diferente. Se assim é, então não é a panaceia para todos os males.
É nossa convicção, e não só nossa como veremos mais à frente, que esta crença atual do treino desportivo está longe de ser verdadeira e inclusivamente, tenderá ao longo do tempo a fazer desacreditar o próprio método mesmo até nos objetivos para que poderá ser usado.
A relação entre as modas, o Youtube e o futuro negro dos nossos atletas
Quanto mais esquisito o exercício, pior o treinador.  Isto é uma máxima que deveríamos ter todos presente sempre que estamos a preparar um treino. Mas de onde raio veio a moda que quanto mais “circo” parecer o exercício melhor?!? Ah, o marketing! O marketing levou a melhor, e neste momento procuramos sempre o exercício mais estranho e elaborado possível para fazer – usamos bosus e outras plataformas instáveis, bolas de fitball, TRX etc., com o pretexto que cria instabilidade e que por isso, aumenta as solicitações musculares, aumenta a força, aumentamos a explosividade, queimamos mais gordura, etc. Começam por isso as pesquisas no Youtube para encontrar o exercício mais rebuscado possível. A ideia parece atrativa: Fixe fixe é fazermos um agachamento com barra em cima de uma fitball…ou usarmos o bosu num grupo de atletas enquanto o outro grupo está a treinar “bola” e depois trocamos…ou talvez fazermos uma ponte de glúteos com pés na fitball para virarmos sprinters.
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Exercício funcional para quê?
Os factos
Os factos são simples e vamos expô-los de forma muito clara para que não haja espaço para interpretações erradas:
  1. para que se consiga aumento progressivo de força, o estímulo tem de criar sobrecarga suficiente. O Treino Funcional não consegue atingir esse nível de estímulo.
  2. para se conseguir produzir estímulos suficientes, temos de respeitar a 2ª lei de Newton (F= M x A) assim como a 3ª lei de Newton, Princípio da Ação Reação, que nos diz que a qualquer força exercida ocorre sempre uma reação igual e de sentido contrário. Este princípio está diretamente implicado na forma como os atletas de desportos explosivos devem ser treinados já que devem aplicar ou exercer contra o solo níveis ótimos de força num tempo mais curto possível, portanto quanto maior for a força que se possa aplicar no solo maior será a força de reação que devolverá como resposta desde o solo para aquilo que se denominou de impulsão vertical (os desportistas de elite são aqueles que maior quantidade de força aplicam sobre o solo num menor tempo possível, logo P= F x V). O Treino Funcional está altamente limitado neste aspeto.
A verdade é que a maior parte dos exercícios realizados em plataformas instáveis, após uma série de sessões deixam de produzir o efeito inicial deixando assim de ser efetivos ou mesmo necessários.
Estudos recentes demonstram inclusivamente que o uso excessivo das plataformas instáveis diminui a capacidade de explosão do atleta.
Grande parte das vezes usamos este tipo de treino/exercícios para trabalhar o “core”. Os estudos demonstram que o “core”, a par das mãos, são dos grupos musculares menos “treináveis”. Quem já “perdeu” muito tempo numa sala de treino consegue perceber isto, na prática. A verdade é que existem poucos exercícios tão bons para treinar o “core” como o Levantamento Terra (Deadlift).
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Será este exercício não funcional?
Outras vezes usamos estes exercícios para melhorar o equilíbrio e diminuir o risco de lesões. Apesar de este método ganhar uma importância renovada na prevenção e recuperação de lesões, sabemos que apenas poderá afetar positivamente a relação “interna” da propriocepção (relação entre os proprioceptores e os centros superiores) mas não tem qualquer efeito na qualidade da interpretação da informação que chega aos centros superiores vinda do exterior e recebida pelos principais captores (ex: pé e olho – este assunto ficará mais claro quando apresentarmos aqui o trabalho de recuperação com um atleta nosso) – estes sim, dos principais responsáveis, potenciadores ou limitadores, da qualidade dos padrões de movimento.
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Será este outro exercício não funcional?
Por outro lado, que relação existe entre os padrões de movimento de competição e um agachamento numa fitball ou num bosu? Absolutamente nenhuma (inclusivamente nas modalidades como o surf). Quando falamos de treino para aumento da força ou velocidade, o treino funcional não passa de um “treino para entreter meninos” sem qualquer transfer significativo e absolutamente exclusivo para a competição ( a não ser que exista um campeonato de equilíbrio no bosu ?!?!? – desconhecemos ).
O problema é o facto de este tipo de treino ser vendido como se fosse a cura para o cancro. E, aproveitando-se do aumento de “Licenciados no Youtube” e do interesse económico crescente na área da saúde e bem estar e fitness, é assim que vemos este método a ser usado. Qual vai ser o resultado final? Fácil, quando perceberem que não faz milagres, o método vai ficar desacreditado.
Em jeito de conclusão
 
Não existe espaço para o “Treino Funcional” e para os equipamentos por si usados? Sim existe, principalmente no mercado de Personal Training…mas tem muito pouco espaço no mercado do treino para a Performance. Poderá ser usado mas nunca com a premissa que está a ser usado para aumentar a velocidade ou a força de um atleta. Não é por isso um tipo de método de treino de força mas antes uma ferramenta complementar ao treino da força.
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2 thoughts on “Treino Funcional – como limitar a progressão de um atleta

  1. Gostei muito da matéria, mas acrescentaria ainda que outra limitação do TF é a ausência de uma periodização/estruturação lógica dos exercícios. Vejo em aulas de TF que em um dia trabalha-se bíceps e no outro tríceps. Eu disse numa pós que outra grande diferença do TF para o Treinamento Neuromuscular Integrativo (INT) além da progressão, é a ausência da periodização e fui esculachado kkkkkk. Abs.

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    1. Olá Nelton,
      Obrigado pelo feedback e partilha de experiência. Pois é, esta história do TF é uma moda que se aproveita de uma falta de conhecimento generalizada dos métodos aplicados à Performance Desportiva. Sem dúvida que a periodização e uma estruturação lógica dos exercícios é fundamental para o sucesso na Performance Desportiva. Sabemos bem o que é ser “esculhachado”, por isso força Nelton, não estás sozinho.

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